O Financial Times é o meu jornal preferido, sendo a secção de analysis o foco das minhas atenções, entretanto, às vezes entre o esfolhear das páginas encontro mais alguns artigos interessantes. Interessantes porque, por um lado, me fazem lembrar da minha infância, minhas vivências, ku plástico txapadu, suor na testa, pé na txon, na caminho de Cova Figueira ou de São Filipe e, porque retratam temas actuais, de forma clara e inteligente, por outro.
Hoje, foi um daqueles dias em que encontrei uns escritos de Michael Holman, ex-editor do Financial Times em África, sob o título “Yours baffled, on Austerity, Bono and a culture of cuts” qualquer coisa como «Dúvidas sobre a austeridade, Bono e uma cultura de cortes»!
O artigo relata uma correspondência entre o pai e o filho, estando este a estudar em Londres e aquele em África...
Eis ela...
Querido pai,
Cumprimentos de Londres, onde todos estão falando sobre "cortes". À semelhança dos momentos em que o pai lutava com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Lembre-se daquele dia, quando dois rapazes chegaram ao seu escritório? Tinha sido a primeira visita dos dois à África. Eles eram espertos. Um trabalhava para o Banco, o outro para o Fundo. Na altura o pai era Secretário Permanente para a Educação. Eles queriam falar de cortes: nos serviços público, na saúde, na educação, em empresas estatais, em todos os lugares, só se ouvia “cortes”. Lembro que naquela noite o pai voltou à casa muito irritado.
"Esses garotos espertos com os seus programas de ajustamento estrutural, vão tornar a vida muito difícil, eles vão destruir uma geração", disseste para a mãe durante o jantar.
Aqui em Inglaterra, existe a mesma conversa, as mesmas palavras, mesmas ideias.
"E possivelmente os mesmos resultados, disse o primo Didymus. O nosso amigo Inglês, Anthony, que quer ir para a universidade, não riu.
"Não é engraçado", disse ele.
Graças a Deus, o FMI e o BM já não nos incomoda tanto em África como costumavam. Em vez disso, estão a observar a Irlanda - exactamente tal como costumavam nos ver, sentados nos respectivos escritórios, próximo ao do Governador do Banco Central.
Quem, por sinal, está na delegação da União Africana, que vai aconselhar os Irlandeses sobre "direito à propriedade, participação popular e consultoria"? Ouvi dizer que eles se reunirão com o Bono, que vai levar supermodelos, estrelas da música pop e locutores da BBC, que irão fazer um apelo à "Redução da Dívida da Irlanda".
Anthony disse-me que, haverá transporte aéreo para Dublin para os especialistas em ajuda, consultores em desenvolvimento e até especialistas transversais.
Ele disse que talvez juntar-se-á a eles, e depois fará o ano pré-universitário na Irlanda.
Na última carta para mim, minha irmã e meu irmão pediram para explicar-lhes acerca desses cortes na Inglaterra. Eu vou tentar. Algumas coisas eu sei que eles não vão acreditar, mas são verdadeiras. Outras coisas são muito difíceis de explicar, e eu mesmo ainda estou aprendendo. Quando perguntei ao professor de sociologia para explicar as coisas, ele respondeu que "a pobreza é relativa". Isso significa... bem, eu não tenho certeza.
Mas, muita coisa aconteceu desde que eu saí de casa e vim estudar aqui. Está a custar mais do que pensávamos. Mas eu tenho sorte. Muita sorte. Tenho um trabalho no McDonald's. Eles me pagam o salário mínimo, £6 por hora. Alguns dos meus amigos Ingleses chamam isso de salário de "lixo". Eu acho que é por isso que poucos alunos Ingleses estão trabalhando no McDonald's.
Disse-lhes que, num único fim de semana, a trabalhar horas extras, ganho o que o meu irmão mais novo recebe como segurança, por um ano. Anthony está pedindo aos seus pais e amigos para patrociná-lo ou ajudar-lhe a angariar dinheiro para seu "ano de voluntariado". Isso significa que ele quer que eles o ajudem a comprar o seu bilhete para a África. Ele diz que irá ao nosso país e ajudará as pessoas que vivem em favelas. Isso seria "brilhante", ele me informou.
Agora, deixe-me falar sobre "cortes". As pessoas têm muito medo de cortes, especialmente "cortes selvagens", que virão em breve. Todos os dias eles estão chorando. Ouvi com muita atenção.
Estas são algumas das coisas que eu pude perceber. Esta parte da carta, a família e o pai podem não acreditar. Mas eu vos garanto é pura verdade.
Em primeiro lugar, neste país, o governo paga as pessoas para ter filhos. Mil libras! Sim, eu sei - que é a renda média do nosso povo!
Mil! Para cada criança. A cada ano. Até os 18 anos.
Didymus disse para não dizer isso ao tio Tangwenya. Ele já é pai de sete. Se alguém lhe prometer dinheiro para fazer filhos, ele viria para Londres e, nenhuma mulher estaria salva, diz ele.
Estes abonos de família em breve serão cortados, diz o governo. Para mim, são águas passadas, mas para os pais é muito preocupante.
Minha irmã Patience, perguntou se era verdade que as crianças na Inglaterra não precisam de andar até a escola. Ela tem razão. Se a criança vive mais de três milhas da escola, o município deve fornecer transporte. Mesmo se for táxi! Sim, é a lei.
Mas há um grande receio que as cortes poderiam acabar com isso. Outras coisas podem ser cortadas. Os filhos do meu vizinho são muito preguiçosos, e estão dormindo, quando deveriam estar na escola. Sim! Dormir! Ainda que tenham uma boa faculdade com livros e professores, e salas de aula com janelas, com vidro e tudo.
E se chegarem todos os dias a tempo, eles são pagos! Sim! Vinte libras por semana. Só para chegar ao seu colégio a tempo. Eles o chamam de "subsídio de manutenção da educação".
Da próxima vez vou falar mais sobre essa questão de "cortes" - embora o pai não vai acreditar na maioria das coisas. No nosso país, quando você é demitido, pode morrer de fome. Aqui, nunca. Nunca! Há "indemnizações", "prestações de desemprego"e acções de formação.
Tenho que terminar, senão chegarei atrasado ao trabalho. Didymus disse-me para perguntar ao professor de sociologia: “Se é relativa a fome, assim como dizem que a pobreza é relativa?” "Engraçado, deve perguntar, porque esse é o tema do teu próximo ensaio". Deves entregá-lo para mim na terça-feira, acrescentou ele".
Didymus reiterou ainda que, eu devia escrever sobre o que disse Kenneth Kaunda – após anos de cortes na Zâmbia. “O medicamento foi tão forte que matou o paciente”.
Hoje, foi um daqueles dias em que encontrei uns escritos de Michael Holman, ex-editor do Financial Times em África, sob o título “Yours baffled, on Austerity, Bono and a culture of cuts” qualquer coisa como «Dúvidas sobre a austeridade, Bono e uma cultura de cortes»!
O artigo relata uma correspondência entre o pai e o filho, estando este a estudar em Londres e aquele em África...
Eis ela...
Querido pai,
Cumprimentos de Londres, onde todos estão falando sobre "cortes". À semelhança dos momentos em que o pai lutava com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Lembre-se daquele dia, quando dois rapazes chegaram ao seu escritório? Tinha sido a primeira visita dos dois à África. Eles eram espertos. Um trabalhava para o Banco, o outro para o Fundo. Na altura o pai era Secretário Permanente para a Educação. Eles queriam falar de cortes: nos serviços público, na saúde, na educação, em empresas estatais, em todos os lugares, só se ouvia “cortes”. Lembro que naquela noite o pai voltou à casa muito irritado.
"Esses garotos espertos com os seus programas de ajustamento estrutural, vão tornar a vida muito difícil, eles vão destruir uma geração", disseste para a mãe durante o jantar.
Aqui em Inglaterra, existe a mesma conversa, as mesmas palavras, mesmas ideias.
"E possivelmente os mesmos resultados, disse o primo Didymus. O nosso amigo Inglês, Anthony, que quer ir para a universidade, não riu.
"Não é engraçado", disse ele.
Graças a Deus, o FMI e o BM já não nos incomoda tanto em África como costumavam. Em vez disso, estão a observar a Irlanda - exactamente tal como costumavam nos ver, sentados nos respectivos escritórios, próximo ao do Governador do Banco Central.
Quem, por sinal, está na delegação da União Africana, que vai aconselhar os Irlandeses sobre "direito à propriedade, participação popular e consultoria"? Ouvi dizer que eles se reunirão com o Bono, que vai levar supermodelos, estrelas da música pop e locutores da BBC, que irão fazer um apelo à "Redução da Dívida da Irlanda".
Anthony disse-me que, haverá transporte aéreo para Dublin para os especialistas em ajuda, consultores em desenvolvimento e até especialistas transversais.
Ele disse que talvez juntar-se-á a eles, e depois fará o ano pré-universitário na Irlanda.
Na última carta para mim, minha irmã e meu irmão pediram para explicar-lhes acerca desses cortes na Inglaterra. Eu vou tentar. Algumas coisas eu sei que eles não vão acreditar, mas são verdadeiras. Outras coisas são muito difíceis de explicar, e eu mesmo ainda estou aprendendo. Quando perguntei ao professor de sociologia para explicar as coisas, ele respondeu que "a pobreza é relativa". Isso significa... bem, eu não tenho certeza.
Mas, muita coisa aconteceu desde que eu saí de casa e vim estudar aqui. Está a custar mais do que pensávamos. Mas eu tenho sorte. Muita sorte. Tenho um trabalho no McDonald's. Eles me pagam o salário mínimo, £6 por hora. Alguns dos meus amigos Ingleses chamam isso de salário de "lixo". Eu acho que é por isso que poucos alunos Ingleses estão trabalhando no McDonald's.
Disse-lhes que, num único fim de semana, a trabalhar horas extras, ganho o que o meu irmão mais novo recebe como segurança, por um ano. Anthony está pedindo aos seus pais e amigos para patrociná-lo ou ajudar-lhe a angariar dinheiro para seu "ano de voluntariado". Isso significa que ele quer que eles o ajudem a comprar o seu bilhete para a África. Ele diz que irá ao nosso país e ajudará as pessoas que vivem em favelas. Isso seria "brilhante", ele me informou.
Agora, deixe-me falar sobre "cortes". As pessoas têm muito medo de cortes, especialmente "cortes selvagens", que virão em breve. Todos os dias eles estão chorando. Ouvi com muita atenção.
Estas são algumas das coisas que eu pude perceber. Esta parte da carta, a família e o pai podem não acreditar. Mas eu vos garanto é pura verdade.
Em primeiro lugar, neste país, o governo paga as pessoas para ter filhos. Mil libras! Sim, eu sei - que é a renda média do nosso povo!
Mil! Para cada criança. A cada ano. Até os 18 anos.
Didymus disse para não dizer isso ao tio Tangwenya. Ele já é pai de sete. Se alguém lhe prometer dinheiro para fazer filhos, ele viria para Londres e, nenhuma mulher estaria salva, diz ele.
Estes abonos de família em breve serão cortados, diz o governo. Para mim, são águas passadas, mas para os pais é muito preocupante.
Minha irmã Patience, perguntou se era verdade que as crianças na Inglaterra não precisam de andar até a escola. Ela tem razão. Se a criança vive mais de três milhas da escola, o município deve fornecer transporte. Mesmo se for táxi! Sim, é a lei.
Mas há um grande receio que as cortes poderiam acabar com isso. Outras coisas podem ser cortadas. Os filhos do meu vizinho são muito preguiçosos, e estão dormindo, quando deveriam estar na escola. Sim! Dormir! Ainda que tenham uma boa faculdade com livros e professores, e salas de aula com janelas, com vidro e tudo.
E se chegarem todos os dias a tempo, eles são pagos! Sim! Vinte libras por semana. Só para chegar ao seu colégio a tempo. Eles o chamam de "subsídio de manutenção da educação".
Da próxima vez vou falar mais sobre essa questão de "cortes" - embora o pai não vai acreditar na maioria das coisas. No nosso país, quando você é demitido, pode morrer de fome. Aqui, nunca. Nunca! Há "indemnizações", "prestações de desemprego"e acções de formação.
Tenho que terminar, senão chegarei atrasado ao trabalho. Didymus disse-me para perguntar ao professor de sociologia: “Se é relativa a fome, assim como dizem que a pobreza é relativa?” "Engraçado, deve perguntar, porque esse é o tema do teu próximo ensaio". Deves entregá-lo para mim na terça-feira, acrescentou ele".
Didymus reiterou ainda que, eu devia escrever sobre o que disse Kenneth Kaunda – após anos de cortes na Zâmbia. “O medicamento foi tão forte que matou o paciente”.
Anthony parecia muito interessado, tendo perguntado, "se as pessoas na Zâmbia, ainda sentiam dores".
"Sim", disse-lhe eu.
Ele parecia mais alegre: “Parece um bom lugar para o meu ano de voluntariado. Se eu não ir para a Irlanda...”
Seu querido filho.
Mais palavras p’ra quê...?
Macau, 23 de Dezembro de 2010
Seu querido filho.
Mais palavras p’ra quê...?
Macau, 23 de Dezembro de 2010