Em Maio de 2005, a Ilha do Fogo, passou a ter 3 concelhos – unidade básica de organização política, económica, social e cultural.
Será possível se pensar na racionalidade do conjunto – Djarfogo – sem a conexão das unidades básicas — os três municípios ? O mesmo pode ser dito relativamente ao conjunto maior – Cabo Verde – ao não se pensar no balanço entre as suas 10 ilhas.
Hoje, nas ilhas e na diáspora, os foguenses, começam a ver a Ilha do Vulcão, como sendo um lugar distante, onde os projectos do governo central e as iniciativas empresarial demoram a chegar, remetendo o seu berço para fora do xadrez nacional – entretanto, convém salvaguardar, que não vale a pena apontar dedo a qualquer dos actores políticos, quer na situação ou na oposição, pela conjuntura da Ilha, mas simplesmente, reclamar maior atenção de quem de direito.
A dimensão territorial dos processos económicos é essencial. Em particular, ao se deslocar boa parte das iniciativas de desenvolvimento ao nível local, aproxima-se a decisão do espaço onde o cidadão pode efectivamente participar, olhando de frente para os problemas que o rodeia.
Entre os economistas, apesar da crise que hoje enfrentamos, um pouco por todo o globo, existe a consciência de que, o modelo dominante de crescimento económico expressa o desejo do capital global por uma economia sem fronteiras – baseada no liberalismo de mercado. Reduz-se o papel do Estado ao garante de lei e ordem – isto é, assegurar o respeito pelos contratos e a manutenção da ordem pública.
Esta visão incorpora também a expectativa de que os governos (central e local) lidarão da melhor forma com as consequências sociais do (des)investimento privado e das decisões produtivas, tais como o esgotamento dos recursos naturais, desemprego, pobreza, degradação ambiental e outros problemas de foro público – ditado pela imperfeição do próprio mercado. Vejamos o que poderá acontecer em Porto Novo - Santo Antão – cerca de 200 trabalhadores vai cair no desemprego com a saída da CABOCEM.
As autarquías devem prestar atenção ao ambiente físico — a base dos recursos económicos, o valor estético das paisagens, o balanceamento entre o tradicional [património material e intangível] e o moderno – mas acima de tudo, a qualidade de vida das populações, construido um ambiente ideal para a sã convivência dos munícipes. A interdição da extracção de areia nas praias do Fogo, parece-nos ser uma decisão acertada. Embora entendemos perfeitamente a atitude reivindicativa, dos camionistas, uma vez que centenas de pessoas ficarão desempregadas por causa desta decisão. É necessário que as três autarquías, encontrem uma solução viável para garantir o pão de cada dia das pessoas afectadas. A anunciada importação de areia por intermédio de investidores portugueses não satisfaz, pois, estes só virão à caça do lucro imediato – em curto período de tempo vão se embora. É preciso a promoção do empresariado local.
Mas é errado pensar que é um dever exclusivo da classe política, pois, para além da regulação empresarial e governamental, deve existir um processo de participação crescente da sociedade, na linha daquilo a que Friedman chamou de governação participativa. Um desenvolvimento alternativo — centrado nas pessoas e no seu ambiente, mais do que na produção e nos lucros, e que passa essencialmente pela melhoria das condições de vida e das vivências da comunidade.
Estes objectivos nos levam à ideia de articulação entre a população local e o poder autárquico. Apesar de apontar para uma política localmente enraizada, o desenvolvimento alternativo requer uma equipa competente e coesa em cada uma das autarquías, para implementar a/s estratégia/s que melhor se adapte à realidade e potencialidades da Ilha. A burocracia, a arrogância e o despesismo, deve ceder lugar à eficiencia, agilidade e transparência na gestão da coisa pública, ou seja, numa democracia inclusiva, na qual, a administração dos problemas sociais, são manejados localmente, em parceria com a própria população, desde que organizada em comunidades detentoras de expertise técnica e científica. Lá onde não houver estes atributos o governo deve ajudar a criá-los.
Com isto, a participação comunitária, o seu envolvimento directo na supervisão/gestão dos recursos localmente disponíveis, aparece como um mecanismo complementar à acção dos órgãos administrativos do Estado.
Os trabalhos de PUTNAM [O capital social – um conjunto de características da organização social, em que se inclui as redes de relações, normas de comportamento, valores, confiança, obrigações e canais de informação que contribuem para aumentar a eficiência da sociedade, facilitando acções coordenadas em termos político/social/económico] trouxeram fortes avanços neste plano, pois mostram que os mecanismos participativos não só complementam a regulação do Estado e do mercado, mas constituem uma condição importante da eficiência da estrutura ou das partes constitutivas.
Segundo PUTNAN, pelo lado da procura, os cidadãos das comunidades cívicas querem um bom governo e em parte pelos seus próprios esforços conseguem elegê-lo. Eles exigem serviços públicos eficazes e estão dispostos a agir colectivamente para alcançar os seus objectivos comuns. Pelo lado da oferta, o desempenho do governo representativo é favorecido pela infraestrutura social das comunidades cívicas e pelos valores democráticos tanto das autoridades quanto dos seus cidadãos.
Do ponto de vista da teoria económica, o processo em sí é interessante, pois o ser humano foi gradualmente passando da visão do capital físico acumulado, para uma compreensão do papel maior do capital financeiro, evoluindo à tomada de consciência da importância do capital natural que é muito limitado, para a compreensão ampla do capital humano, crucial para os avanços tecnológicos, até chegar ao capital social que representa de maneira mais ampla a maturidade e coesão do tecido social que sustenta o conjunto. Chegou a hora de vermos a administração local como a execução de políticas de fortalecimento e qualificação das estruturas internas, visando a consolidação de um desenvolvimento genuinamente local e criando condições sociais, políticas e económicas para a geração e atracção de novas actividades produtivas e fortalecimento dos laços de solidariedade local. Assim, o desenvolvimento é consequência da democracia e da organização social que se instituem pela presença e pelo fortalecimento do capital social.
Na esfera do desenvolvimento, a inclusão social somente é sustentável quando a promoção da localidade se faz pelo alargamento de vectores de transmissão de capital social por meio da democracia local junto à dimensão económica que interagem de forma complementar e dinâmica para a sua sustentabilidade.
As autarquías do Fogo, para se libertarem dos males que as assolam, devem abandonar a visão tradicionalista de superior hierárquico no relacionamento com os seus munícipes e adoptar novas orientações de gestão (inter)municipais, como por exemplo, criar consórcios (inter)municipais de saúde, de educação, comités de gestão agrícola e pesqueira, conselhos regionais de desenvolvimento, redes de cidades-irmãs, permitindo articulações horizontais eficientes e dinâmicas, por forma a que as comunidades deixam de ser pequenas/micros agentes, possibilitando a sua viabilidade económica, bem como interacção criativa e diferenciada.
A explicação está no facto de que, caso o sentimento de pertença emergir a nível local, as pessoas podem participar directamente, pois conhecem a realidade e a escala de decisão coincide com a sua perspectiva de conhecimento, deixando a comunidade local de ser receptor passivo de decisões superiores, seja de quem vai construir um centro de saúde, um licéu, ou de uma empresa que estabelece no concelho e cria empregos. O desenvolvimento deixa de ser algo que se espera pacientemente, para tornar-se no resultado de um djuntamon de todos os intervenientes sociais.
Existe ainda um leque vasto de estudos que falam sobre o desenvolvimento local. Não vou aqui debruçar sobre mais nenhum, mas queria deixar claro que, o ponto de convergência entre eles está na mudança do paradigma de comunicação.
Adoptando a ideia de desenvolvimento alternativo, ter-se-á como resultado imediato, a imagem de uma ilha agradável, com razoável prosperidade, saúde, riqueza cultural, equidade e segurança – grande parte destes actos se organiza localmente – do mesmo modo que, ter autarquías gerida por resultados implica ampla parceria com a comunidade.
Para finalizar, queria aqui reiterar que a nossa visão de resgatar o potencial da Ilha do Fogo, não envolve apenas eficiência na gestão pública, mas também a criação de condições para a promoção da economia local, da agricultura familiar, do turismo, das pescas, de pequenas indústrias etc., ou seja, colocar uma fatia maior de decisão nas mãos dos munícipes, resgatando assim o controle sobre as suas próprias vidas. O mesmo é extensivo às restantes ilhas do nosso querido arquipélago.
Bem haja!