Durante esta semana, os textos dos Senhores Jorge Nogueira, deputado do MPD, e Júlio Correia, deputado do PAICV, têm sido destaque no Manduco.net. E como não podia deixar de ser, receberam muitos comentários dos internautas. Umas bem articuladas, outras nem por isso. Eu, da minha parte, e sem sentir atraido por nenhum dos escritos, decidi, brindar aos comentaristas estas simples reflexões.
Não vou entrar em detalhes, no que tange aos resultados apresentado pelos Senhores deputados, nem me preocupo muito com a questão dos números/médias ou obras apresentadas/apontadas, pois, como muitos sabem, os dados estatísticos podem ter mais do que uma única leitura e os projectos em execução aparentam ser muito reduzidos para uma ilha com imensas potencialidades. A mim me interessa mais, focalisar no combate á pobreza, promoção do desenvolvimento e construção de infraestuturas físicas.
Para os mais atentos não é estranho que o Fogo, esteja atrasado em relação a outras ilhas, entre as quais, Santiago, São Vicente e Sal – além de que, com o desenrolar das coisas, nos moldes actuais, a Boa Vista, deve(rá) também nos ultrapassar num futuro próximo.
Neste contexto, a educação, a acção dos governos (local e nacional) têm um papel decisivo no melhoramento da capacidade das pessoas para responder aos desafios que a vida lhes impõem, por forma a atingir o bem-estar e livrar-se da pobreza.
Enquanto não garantimos a satisfação das necessidades básicas, entre as quais, alimentação, abrigo, vestuário, água potável, saneamento básico, transportes e educação – somos pobres, pelo que há que trabalhar. Outrossim, desde que continue a existir exclusão social, incapacidade das pessoas desenvolverem uma vida longa, saudável e criativa de forma a conseguirem viver com liberdade, dignidade e respeito por si próprias e pelos outros – o Fogo está atrasado, há que lutar.
Os agentes causadores da pobreza, costumam ser vários, situando essencialmente nos níveis macro e micro. Não vou debruçar sobre os factores macro e micro, por motivos vários. Queria sim, arriscar-me em falar de políticas regionais e práticas institucionais que reforçam a exclusão da Ilha do Fogo, contribuindo para o desaparecimento de culturas locais e atraso na vertente económia, condicionando a vida das pessoas, isto é, limitando o seu acesso aos bens e serviços básicos. Como já disse anteriormente, a pobreza só será diminuida se ensinarmos os pobres que nada cai do céu, e os reponsáveis politicos derem sinais de honestidade e lutarem para a promoção do desenvolvimento regional equilibrado.
Depois da alternância política na década de 90, experimentamos em Cabo Verde, os governos do MPD [10 anos] e teremos o PAICV durante [pelo menos 10 anos]. Entre os foguenses (e não só), a opinião é (quase) unânime que ambos os partidos podiam [deviam] ter feito mais e melhor pela Ilha. Mas, porque será que não o fizeram ? Eis as algumas reflexões, os demais articulistas/comentaristas podem complementar/subscrever ou opôr a este raciocínio, com base na ética e na democracia.
Em economia, existem duas correntes [principais] que debruçam sobre eficiência, destribuição de riqueza e grupos de interesses.
A PRIMEIRA centra-se no papel de imperfeições nos mercados, as quais gerariam algum grau de persistência na distribuição inicial e levariam a que alguns agentes ficassem restritos a níveis ineficientes de alocação de recursos. Se alguns modelos já incorporam um papel relevante para o gasto do governo, ainda não parece ter sido enfocado o facto de que o governo pode gastar de formas diferentes e com efeitos distintos do ponto de vista macroeconómico e de bem-estar social, bem como dependentes da distribuição de riqueza.
A SEGUNDA com ênfase em mecanismos da economia política, no sentido de tomar por base a existência de algum impacto da desigualdade sobre uma decisão política de redistribuição, a qual afecta o desempenho económico. Como sabemos, existe um vasto espectro de formas significativas de participação política que ultrapassam a simples participação em eleições – contribuições políticas, convencimento de eleitores, trabalho em campanhas, participação em reuniões políticas, manifestações directas aos representantes, entre outros, e cuja importância não pode ser adequadamente capturada em função da votação.
Tomando isso por base, uma alternativa promissora pode partir do uso da ideia de grupos de pressão (grupos político-partidários), partindo do princípio de que os governos agem não só em resposta às necessidades da população, mas também em resposta ás pressões aplicadas por determinados grupos de interesses, e que, essa observação aplica-se, em particular, a políticas redistributivas e aos interesses em torno delas.
Especificamente, supõe-se que a população de todas as ilhas articulam-se como grupos de interesse organizados para tentar influenciar as decisões da política do governo, que, conforme acima adiantado, dizem respeito à escolha entre dois tipos de gastos – uma segundo as potencialidades e outra em função dos interesses políticos. A verdade é que os grupos da ilha do Fogo, continuam sem movimentar – sem se entenderem – sem colocar os interesses da ilha acima dos interesses partidários e pessoais – enquanto que os de outras ilhas, em especial, Santiago, São Vicente e Sal, (caso) isso acontece é num nível mais moderado.
Se pensamos que grupos de interesse tentam influenciar a decisão do governo por meio de contribuições políticas, ou seja, promete dar ao governo um determinado número de votos, em troca das realizações. O governo, por sua vez, atribui um peso às contribuições de cada grupo, conforme o número de votos que recebe. Desse modo, pretende-se incorporar a discussão a respeito da capacidade de acção de grupos de interesses comuns, ainda que sem defini-la explicitamente em termos político-partidários. A maior facilidade de organização de um grupo seria medida pelo peso de sua contribuição na função-objectivo do governo. Especialmente, no que diz respeito à ideia de que grupos coesos e menos dispersos têm probabilidade de conseguirem articular-se melhor.
Essa discussão parece relevante para entender as maiores influências de grupos das ilhas de Santiago, São Vicente e Sal, em detrimento dos grupos do Fogo, no resultado do processo político e realizações, pois, sabendo de antemão a preferência do eleitorado foguense, os actores políticos, seja de que partido for, tendem a não prestar atenção às necessidades da população — o que realmente fazem são promessas vazias durante as campanhas que antecedem as eleições.
Daí que digo a todos, não esperemos que o governo do PAICV ou do MPD venha a ser benevolente com a população de Djarfogo. É necessário sim, organizar-se de forma tão efectiva quanto às outras ilhas, para que a alocação dos recursos seja melhorada. Em outras palavras, quero dizer que é preciso emancipação e lobby político para obrigar os governantes a olhar para a ilha – pois de mãos beijada, a esmola NUNCA cairá do céu.
Contudo, o governo não deve levar em conta só os lobbys, mas também tem de preocupar-se com o bem-estar social. Pois o processo de escolha política não ocorre apenas por meio da interacção de grupos de interesse, até porque a estrutura do eleitorado tende a mudar com o passar dos anos, de modo que deve prestar atenção ao impacto de sua acção no bem-estar social da população.
Para finalizar, quanto a mim a solução não é a discussão se é o MPD ou o PAICV, quem mais contribuiu/contribui para a melhoria das condições de vida das gentes de Djarfogo, mas sim a união entre os diferentes actores políticos, em especial os deputados, as autarquias, as forças vivas da ilha, na criação de uma Plataforma de Desenvolvimento [tanto melhor se incluir a ilha Brava ] por forma a pressionar o governo para olhar para o caudal arquipélago.